domingo, 23 de março de 2008

Tarde tristonha

Esse foi um fim de tarde triste. E de uma tristeza completamente azul. Umas manchas cinzas e outras brancas, mas foi uma tristeza azul. Alguns vôos, alguns cantos. Pedestres voltando às casas. E milhares de tons azuis.


Podia ser uma aurora de Rimbaud. Ou uma noite geada de Dostoievski. Podia ser tudo, mas era um pôr-do-sol azul. Os muros, vestidos de lodo como espelho, eram azuis. As calçadas, sujas e úmidas, também eram. O asfalto negro, com seus raros pigmentos branco-arenosos, pintava-se todo de azul.


Não havia o alaranjado comum de um sol indo para a noite, fervendo de ódio. Não havia tons róseos. Nada. Só azul.


E um azul perseverante. Teimoso. Um dia azul que não anoitecia. Permanecia lá, como parecendo sonhar com o dia eterno. Um dia azul, não cinzento como esses.

Mas quando cobri-me de telhas, anoiteceu.

sábado, 8 de março de 2008

Noites de chuva

Essas noites de chuva
Sempre nos roubam o olhar

Entre um gole e outro
O olhar se perde nessas lágrimas

De que lamentam-se tanto
esses deuses ludovicences?

Qual tamanho do pranto
Tal o tamanho da dor?

Que dor é essa, minha ilha?
Que o seu céu chora horrores.

E assim que damo-nos conta
Do nosso próprio sofrimento
Afogamo-o no gosto doce do vinho
Na fumaça esparsa de um cigarro
No perder-se da loucura
E porque não,
Nas gostas do choro alheio.