domingo, 13 de julho de 2008
O ventre
alguém dormia num banco de jardim
havia vinho, barato
batatas fritas e mostarda
Seriam versos soltos no bafo quente dessa noite?
seria mesmo Chico Buarque?
uma porta bate longe
um litro de vinho pela pia da cozinha
alguns tiros perdidos entre estrelas
E ela aperta o ventre e corre pro banheiro.
sábado, 19 de abril de 2008
Minha rua
Silêncio de cúmplice
Nela não se toca mais o tambor de Montello
Nem nada mais
Os batuques são longe
Poucas pontes daqui
Mas nossa rua é só silêncio
Silêncio de cúmplice
Talvez o mar tenha se afastado dela
Ou a brisa não é a mais a mesma
Quem sabe como anda o correr da chuva?
Ou o simples empoeirar do tempo passando?
Como será que anda o calor
E o seu dilatar inexorável?
A quanta brota o mato por entre brechas
Quase inexistentes?
A que pernas correm o tempo,
Corre o dia, corre a noite?
A quantos gritos se desfazem infâncias,
Se fazem amores e crianças?
E a rua e seu silêncio.
Silêncio de cúmplice.
Havia só o silêncio
E um peso na cabeça
Apesar da conversa próxima
Apesar das crianças
Só havia o silêncio.
E um peso na cabeça.
Apesar do tilintar de copos
E dos passar dos carros
Apesar do bater de portas
E do afastar de mesas
Apesar das brigas dos gatos
Do abrir e fechar do portão
Dos uivos distantes
E da música baixinha
Havia só o silêncio
E um peso na cabeça
Apesar da felicidade óbvia
E de toda comemoração
Só havia o silêncio
E um imenso peso na cabeça.
domingo, 6 de abril de 2008
Pássaros em sons portáteis
Passos lentos
Idéias voláteis
Bichos presos em papéis pregados
Sonhos fixos
Braços pesados
Olhos cegos em 15 polegadas
Mente parada
Pele rasgada
Pessoas-máquinas apenas passando
Ossos de ferro
Corações parando
- O concreto precisa de mais poesia.
domingo, 23 de março de 2008
Tarde tristonha
Esse foi um fim de tarde triste. E de uma tristeza completamente azul. Umas manchas cinzas e outras brancas, mas foi uma tristeza azul. Alguns vôos, alguns cantos. Pedestres voltando às casas. E milhares de tons azuis.
Podia ser uma aurora de Rimbaud. Ou uma noite geada de Dostoievski. Podia ser tudo, mas era um pôr-do-sol azul. Os muros, vestidos de lodo como espelho, eram azuis. As calçadas, sujas e úmidas, também eram. O asfalto negro, com seus raros pigmentos branco-arenosos, pintava-se todo de azul.
Não havia o alaranjado comum de um sol indo para a noite, fervendo de ódio. Não havia tons róseos. Nada. Só azul.
E um azul perseverante. Teimoso. Um dia azul que não anoitecia. Permanecia lá, como parecendo sonhar com o dia eterno. Um dia azul, não cinzento como esses.
Mas quando cobri-me de telhas, anoiteceu.
sábado, 8 de março de 2008
Noites de chuva
Sempre nos roubam o olhar
Entre um gole e outro
O olhar se perde nessas lágrimas
De que lamentam-se tanto
esses deuses ludovicences?
Qual tamanho do pranto
Tal o tamanho da dor?
Que dor é essa, minha ilha?
Que o seu céu chora horrores.
E assim que damo-nos conta
Do nosso próprio sofrimento
Afogamo-o no gosto doce do vinho
Na fumaça esparsa de um cigarro
No perder-se da loucura
E porque não,
Nas gostas do choro alheio.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Calor
Em peles encharcadas,
Vizinhos se trancam,
Fechando-se em seus ares condicionados
Mais frescos, que roncam.
A cidade sua, anda de um lado a outro
Se põe nas portas, nos corredores, nas varandas
Tenta canalizar o que não há
Abana-se com jornais velhos
Vai à bica tentar amenizar.
Os jardins se esturricam, secos
Os canteiros morrem
Os grilos gritam por socorro
Num matagal seco, numa poça de água servida
Em qualquer desses morros.
Mas o barulho do mar, bem ao longe
Nos põe na mente a brisa,
A água gelada, a cerveja também
E enquanto a cidade ferve e derrete
Pensa no domingo que vem.